Dicionário elementar de liturgia

José Aldazábal

 

tempo

 

O tempo é, com o espaço, uma das coordenadas em que se inscreve o ser e o agir humanos. É uma realidade importante, misteriosa, inapreensível.
Mas o tempo, além de se entender como a medida cósmica do que acontece na existência humana, pode ter outros sentidos sobrepostos, em conformidade com o sentido que queiramos dar à sucessão das horas e dos dias, em chave humana, social ou religiosa. A ní¬vel meramente cronológico, o tempo é inexorável, vai passando igual para todos, segundo o relógio e o calendário. Mas existe também o «tempo humano, ou interior» de cada um, ou o «tempo comunitário e social», ao compasso dos acontecimentos históricos. E o «homem religioso» vive o tempo com uma referência ao sagrado, no seu continuado retorno como memória dos actos divinos que dão sentido à sua religião.
No AT, o Povo de Israel, além de viver o tempo cósmico – os acontecimentos naturais das estações – deu-lhe um sentido claramente salvífico: a celebração anual das intervenções de Deus na sua história. Assim, a Páscoa primaveril converteu-se, além disso, no memorial anual da saída do Egipto, o êxodo. O Pentecostes celebrava a alegria das colheitas, mas, a seguir, também a comemoração da Aliança do Sinai. O «tempo sagrado» ou histórico--salvífico entrelaçava-se perfeitamente com o «tempo cósmico». O tempo cósmico é o «chronos» grego, dividido, desde muito cedo, nos seus ritmos mais evidentes: o dia, o mês, o ano e, logo também, a semana. O tempo salvífico é o «*kairós» (a ocasião, o momento) do encontro com a graça que Deus oferece ao homem no meio da história.
Os cristãos, embora aceitando a organização do tempo, segundo a cultura de Israel, e, logo depois, segundo a da cultura romana, deram-lhe, desde o princípio, um sentido de novidade e plenitude: tudo se interpretou a partir de Cristo e à volta da sua Páscoa. O dia, a semana, o domingo, a organização do ano: tudo se entendeu como desenvolvimento, celebração memorial e revivência no tempo do Mistério Pascal de Cristo.
O Ano Litúrgico foi-se organizando nesta chave, com a celebração do *ciclo anual dos mistérios de Cristo e dos Santos (cf. SC 103-104). Nele há diversos «tempos»: os «fortes» – Advento, Natal, Quaresma e Páscoa –, o «Tempo Comum», e a sábia inserção no «ciclo temporal» dos mistérios do Senhor, das celebrações dos Santos. «A Santa Igreja considera seu dever celebrar com uma sagrada recordação, em determinados dias ao longo do ano, a obra da salvação do seu divino Esposo. Em cada semana, no dia a que chamou Domingo, faz memória da ressurreição do Senhor, que também celebra uma vez por ano, juntamente com a sua Paixão, na maior das solenidades que é a Páscoa. Distribui todo o mistério de Cristo ao longo do ano, desde a Encarnação e Nascimento até à Ascensão, ao Pentecostes e à expectativa da feliz esperança da vinda do Senhor. Recordando assim os mistérios da Redenção, oferece aos fiéis as riquezas das obras e merecimentos do seu Senhor para que, de certo modo, se tornem presentes em todo o tempo, a fim de que entrem em contacto com eles e se encham da graça da salvação» (SC 102). Tudo isso com um forte olhar escatológico para a plenitude dos tempos, no Reino plenamente realizado de Cristo.
Por outro lado, o ritmo diário do tempo fica santificado pela Liturgia das Horas, seguindo a suces¬são da noite e do dia, da manhã e da tarde (cf. IGLH 10-11). Santificar o tempo não significa sacralizá-lo, mas dar-lhe sentido cristão, viver o trabalho com uma orientação cristocêntrica e pascal. É isto que visa a Liturgia das Horas sobretudo com a celebração matutina das Laudes e a vespertina de Vésperas, no princípio e no final da actividade quotidiana, embora também se rezem outras horas complementares ao longo do dia, no final da jornada e, inclusive, nas vigílias nocturnas. Para que esta consagração ou santificação do tempo seja mais efectiva, recomen¬da-se que se observe o princípio da «veritas temporis» («tempo verdadeiro»), porque «ajuda muito, tanto para santificar realmente o dia como para rezar com fruto espiritual as Horas, que a sua recitação se faça no tempo mais apro¬ximado do verdadeiro tempo natural de cada Hora canónica» (IGLH 11 e SC 88 e 94).

--> Ano Litúrgico. Calendário. Festa. Liturgia das Horas. Memorial. Semana. Tempo comum.