Dicionário elementar de liturgia

José Aldazábal

 

sinal (símbolo)

 

Do latim, signum (senha, sinal). E, do grego, sym-ballo (atirar juntas duas coisas, voltar a reuni-las, como sinal de reconhecimento, duas partes de uma mesma realidade que antes estavam separadas).
O sinal é uma coisa que vemos e nos leva a conhecer algo que não vemos: como, no fumo, a existência do fogo; nas pegadas, a passagem de um animal. Mas esta mediação, que dá a conhecer a realidade oculta, pode ter uma densidade muito variável: desde um mero sinal prático ou convencional (um sinal de trânsito que avisa a aproximação de uma curva) até um símbolo carregado de sentidos humanos (um bolo de aniversário) ou uma acção simbólica que, no contexto da celebração, comunica efectivamente a graça que significa (a imposição das mãos), ou uma pessoa, que é, ela própria, sinal e símbolo da salvação ou de uma realidade invisível (Cristo, sinal, imagem e símbolo de Deus).
Não são sinónimos os dois termos. Os sinais, sobretudo, dão a conhecer; os símbolos são mais densos de sentido, e tendem a criar comunhão: não só notificam, como também evocam e realizam. Os sinais não são da mesma natureza que o significado (o fumo, em relação ao fogo), enquanto que os símbolos, de alguma maneira, contêm a realidade que significam, tornam-na presente e põem-nos em relação com ela (a oferta, como sinal de amor). Todo o símbolo é sinal, mas nem todo o sinal é símbolo. A etimologia do símbolo indica a sua intenção: cada uma das duas partes que se juntam («sym-ballo») já contém a realidade, mas só quando estão juntas ou se recompõem – à maneira de um puzzle reconstruído – é que contêm a realidade completa. «A palavra symbolon significava a metade de um objecto partido (por exemplo, um selo), que se apresentava como um sinal de identificação. As duas partes eram justapostas para verificar a identidade do portador» (CIC 188). Por isso, se chama «símbolo» ao Credo ou Profissão de Fé, ao conjunto dos diversos artigos da nossa fé.
Deus, na História da Salvação, tanto no AT, como na plenitude de Cristo, serviu-se de sinais e símbolos, tomados muitas vezes da própria natureza, com linguagem cósmica (a água, o fogo, o azeite, o pão e o vinho), para manifestar a salvação que nos quer comunicar. Os sinais cósmicos converteram-se em sinais bíblicos da Aliança de Deus, que logo foram assumidos por Cristo, na sua actuação salvífica, e agora são a linguagem expressiva e eficaz da graça sacramental, na celebração da Igreja (cf. CIC 1145-1152). O verdadeiro Sinal, Símbolo e Ícone de Deus, é o próprio Cristo: não só nos manifesta quem é o Pai, como no-lo comunica (cf. Jo 1,14; 5,37; 14,9…).
A Liturgia, sobretudo a celebração sacramental, está tecida de sinais e de símbolos. Os que a Igreja utiliza na sua liturgia são, antes de mais, «sinais do mundo dos homens. Os sinais e os símbolos ocupam um lugar importante na vida humana. Sendo o homem um ser ao mesmo tempo corporal e espiritual, exprime e percebe as realidades espirituais, através de sinais e símbolos materiais. Como ser social, o homem tem necessidade de sinais e de símbolos para comunicar com o seu semelhante através da linguagem, dos gestos e das acções. O mesmo acontece nas suas relações com Deus» (CIC 1146). E da mesma forma como o fazemos na vida social e na linguagem religiosa de todas as culturas, os cristãos expressam a sua fé e as suas atitudes diante de Deus por meio de sinais e símbolos.
O banho na água, ou o comer e beber no contexto da Eucaristia, ou as unções com o crisma, são os sinais pelos quais Deus nos alcança na esfera eclesial e pelos quais nós lhe respondemos e celebramos esta vontade comunicadora de Deus. Na Liturgia, pelos «sinais sensíveis, cada qual a seu modo, é significada e realizada a santificação dos homens, e o Corpo Místico de Jesus Cristo – a Cabeça e os seus membros –, presta a Deus o culto público integral» (SC 7). Como dizia a teologia tradicional, os sacramentos actuam precisamente como sinais e símbolos: «significando causant».
Os Santos Padres falavam indistintamente de símbolos e de sacramentos, porque, então, o conceito de símbolo ainda não tinha perdido, como aconteceria no segundo milénio, o sentido de realidade efectiva e presente. Enquanto que, agora, dizer que algo é «só simbólico» significa que não é real: não corresponde ao que, pelo contrário, cremos dos sacramentos como «sinais eficazes».
Na nossa celebração, há várias classes de sinais e símbolos: a presença das pessoas (o presidente como ícone sacramental de Cristo), a palavra e o canto, os símbolos vinculados ao corpo humano (atitudes corporais, gestos, acções), os sinais vinculados a coisas materiais (luz, água, pão e vinho, azeite, cinza), o lugar da celebração (igrejas, altar, sede…).
As orientações que o Concílio deu em relação a estes sinais e símbolos foram a autenticidade, a clareza e a adaptação à própria cultura: «nesta reforma, convém ordenar os textos e os ritos de tal forma que exprimam com maior clareza as coisas santas, por eles significadas, e o povo cristão, na medida do possível, possa facilmente compreendê-las e nelas participar por meio de uma celebração plena, animada e comunitária» (SC 21). «Os ritos brilhem por uma nobre simplicidade, sejam claros na brevidade e evitem repetições inúteis; sejam adaptados à compreensão dos fiéis e, em geral, não tenham necessidade de muitas explicações» (SC 34).

--> Ícone. Sacramento.