Dicionário elementar de liturgia

José Aldazábal

 

Salmos

 

A palavra grega psalmos e a latina psalmus vêm do verbo psallo (pulsar as cordas do Saltério, fazendo--as vibrar). Isto fazia David para acalmar os maus humores de Saul) (cf. 1Sm 16,16-23).
Chamam-se Salmos os 150 cânticos poéticos bíblicos do livro do Saltério, expressão da fé e da oração do Povo de Israel, que os cristãos tomaram como seus já desde a comunidade apostólica. Foram criados por autores anónimos – apesar dos livros judaicos, com frequência, os atribuirem, entre outros, a David, Asaf e Coré – no período que vai dos séculos X a V antes de Cristo. Podem ser poemas e orações de origem pessoal ou, melhor ainda, do âmbito litúrgico, da sinagoga ou do Templo, de imediato todos eles foram assumidos para o culto e incluídos no Saltério. A sua numeração – entre o Salmo 9 e o 147 – é distinta, no Saltério hebraico ou no latino usado na nossa liturgia, conforme se juntem ou se fragmentem diversos salmos ou parte de salmos.
Dividem-se em géneros literários muito díspares: salmos penitenciais, reais, de lamentação pessoal ou comunitária, de vitória, de acção de graças, de peregrinação, etc. Neles, aparece uma fé feita de louvor e súplica, de situações pessoais e comunitárias, de lamentos e vitória, de reflexão meditativa e protesto, de confiança e desespero. Sempre com um profundo sentido religioso. Os salmos, poemas cantados, são considerados como um tesouro literário e espiritual de Israel e de toda a humanidade, um vibrante retrato da vida e dos sentimentos da humanidade e das suas atitudes para com Deus. «Os salmos são a obra-prima da oração no AT» (CIC 2585; cf. 2585-2589: «Os salmos, oração da assembleia»).
No NT, os Salmos foram entendidos como anúncio profético cumprido em Cristo, como Ele os apresentou, quando aos discípulos de Emaús lhes foi explicando o que diziam dele os Salmos (cf. Lc 24,44). Aconteceu já desde o princípio a «cristologização» dos Salmos: ao sentido literário ou histórico original dos poemas, acrescentou-se o sentido pleno, rezando-os como cumpridos plenamente em Cristo e na sua Igreja, e rezaram-se já a partir desta perspectiva. Às vezes, cristologizavam--se «por alto», quando a Igreja dirige a Cristo o louvor que os israelitas dirigiam a Deus (por exemplo: «povos todos, batei palmas… Deus ascende entre aclamações», rezado no dia da Ascensão e aplicado a Cristo), ou então, «por baixo», quando os salmos se põem na boca do próprio Cristo, dirigidos a seu Pai: («Meu Deus, meu Deus, porque me abandonastes»). No primeiro caso dizem-se como «voz da Igreja»; no segundo, como «voz de Cristo».
Todas as famílias litúrgicas, sobretudo no Louvor das Horas, fazem dos Salmos uma parte substantiva da sua oração. «Na Liturgia das Horas, a Igreja utiliza, em grande parte, para sua oração aqueles belíssimos hinos que, sob a inspiração do Espírito Santo, foram compostos pelos autores sagrados do AT» (IGLH 100). «O Espírito Santo, que inspirou os salmistas a cantá--los, não deixa nunca de assistir com a sua graça aqueles que, animados de fé e boa vontade, salmodiam estes sagrados hinos» (IGLH 102).
«Os Salmos não são leituras nem orações em prosa; são poemas de louvor. […] São designados, em hebraico, pelo termo Tehillim, quer dizer, “cânticos de louvor”, e, em grego, psalmoi, ou seja, “cânticos acompanhados ao som do saltério”» (IGLH 103). «As palavras dos Salmos ajudam-nos, muitas vezes, a orar com mais facilidade e fervor, quer dando graças e glorificando a Deus na exultação, quer suplicando desde as profundezas da nossa angústia» (IGLH 105). «Atendo-se ao sentido literal dos salmos, aquele que os salmodia pro¬curará relacionar o texto com a vida humana dos crentes» (IGLH 107). Mas além disso, «na Liturgia das Horas, quem salmodia não o faz tanto em seu próprio nome como antes em nome de todo o Corpo Místico de Cristo, e até na pessoa do próprio Cristo» (IGLH 108), prestando atenção «ao sentido pleno dos salmos, particularmente ao sentido messiânico», que se revelou no NT (IGLH 109).
O Vaticano II estabeleceu que os salmos fossem distribuídos, não por uma semana, como se tinha feito pelo menos desde S. Bento, mas por um período de tempo mais longo, e que se levasse a cabo o trabalho já iniciado da revisão do Saltério (cf. SC 91). Com efeito, o livro reformado da Liturgia das Horas, aparecido em 1971, estabeleceu que o Saltério se rezasse em quatro semanas. A introdução a este livro (IGLH) enumera as dificuldades que o cristão de hoje pode encontrar na recitação dos Salmos, os elementos que ajudam a rezá-los melhor (antífonas, títulos, frases, orações sálmicas), os vários modos de salmodia, os critérios da sua distribuição nos vários tempos e horas, a possibilidade da sua substituição por outros Salmos, a importância do seu cântico, etc.
Na Missa o salmo aparece sobretudo como canto responsorial, depois da primeira leitura. Também pode rezar--se como cântico de entrada ou de comunhão.
Há outras celebrações em que determinados salmos têm sentido muito especial: nas exéquias (Salmos 113, «Quando Israel saiu do Egipto», e 117, «Dai graças ao Senhor porque Ele é bom»); na celebração da Penitência («Misericórdia, meu Deus, pela vossa bondade»)…

--> Salmodia. Saltério.