Dicionário elementar de liturgia
José Aldazábal
sacrifício
Em todas as religiões há um lugar destacado para o sacrifício, palavra que vem do latim, sacrum-facere (tornar algo sagrado, ou fazer que uma coisa se converta em sagrada, separada, oferecida).
Entende-se o sacrifício como expressão da entrega à divindade, ou por humilde reconhecimento da sua dependência, para lhe dar graças, para expiar os pecados, ou para suplicar a sua ajuda. Oferece-se-lhe algo que se aprecia: su¬põe sempre uma renúncia (imolação) de si ou das próprias posses, também com um sentido de identificação da coisa sacrificada com a comunidade ou a pessoa que a oferece.
No AT, está muito presente o ¬sacrifício, desde o Génesis 8,20 (de-
pois do dilúvio), 15,9-10 (sacrifício de animais por parte de Abraão) ou 22 (Abraão disposto a sacrificar o filho). No princípio, fazia-se com um ritual simples e familiar, mas logo depois, no Templo, desenvolveu-se a sua ritualidade e reservou-se à classe sacerdotal. Às vezes, era um «holocausto», em que se queima tudo o que se oferece (primícias das colheitas ou de animais) em honra de Javé. Outras vezes, «sacrifícios de comunhão», em que depois de queimar parte, ou de o dedicar ao Templo de Deus, partilha-se o resto numa refeição sagrada. Outras vezes ainda,
o sacrifício é de «expiação», em que o animal oferecido se considera como ¬representante dos pecados do povo.
O profeta Malaquias (1,11) anuncia para o tempo messiânico um sacrifício puro. Mas, sobretudo Isaías, nos seus capítulos 52 e 53, descreve a figura do Servo, que se entregará a si mesmo pelos pecados de muitos.
No NT, não tem grande importância o conceito clássico de sacrifício: só o de Jesus Cristo. Assim como Ele é o verdadeiro sacerdote e Mestre, é também de uma vez por todas o Sacrifício definitivo, aquele que, com o seu Sangue, estabelece e rubrica a Nova Aliança. O que Moisés tinha dito em Ex 24,8 so¬bre o sangue dos animais («Eis o sangue da aliança que o Senhor concluiu convosco»), agora, os Evangelhos, sobretudo Mateus e Marcos, no relato da Última Ceia, aplicam-no ao Sangue de Cristo, que selará a Nova Aliança («este é o Sangue da Nova Aliança»).
Jesus Cristo, cuja vida inteira já tinha sido entrega pelos outros e oferecida ao Pai, culmina este sacrifício pela humanidade entregando-se a si mesmo até à morte, superando e levando à plenitude todos os outros sacrifícios: convicção que, sobretudo, sublinha a Carta aos Hebreus (cf. CIC 606-616).
Aos cristãos encarrega-se-lhes que, em toda a sua vida, se unam a esta entrega sacrificial de Cristo, antes de mais com a atitude interior e com o oferecimento do seu corpo, da sua vida (cf. Heb 10,10; Rm 6,13; 12,1; 1Pe 2,21…). «Unindo-nos ao seu sacrifício, podemos fazer da nossa vida um sacrifício para Deus» (CIC 2100).
Mas temos, sobretudo, um sacramento, o da Eucaristia no qual a Igre¬ja celebra, desde o princípio, o me-morial do sacrifício pascal de Cris¬to na Cruz; «O nosso Salvador, na Última Ceia, na noite em que foi entregue, instituiu o Sacrifício Eucarístico do seu Cor¬po e do seu Sangue para perpetuar o Sacrifício da Cruz pelos séculos além, até Ele voltar, e para confiar assim à Igreja, sua amada Esposa, o memorial da sua Morte e Ressurreição» (SC 47; cf. CIC 1356-1372: O sacrifício sacramental).
O Sacrifício de Cristo na cruz é único, irrepetível: mas celebrar o seu memorial é actualizar esse mesmo sacrifício pascal de Cristo, ao longo do tempo da Igreja, até que volte. Comungar com o «Corpo entregue por» e com o «Sangue derramado por» de Cristo é entrar em comunhão com o Sacrifício de Cristo, participar na sua dinâmica, torná-lo próprio. Cristo, desde a sua exis¬tência escatológica de Ressuscitado, continua a ser para sempre «o entregue por», o sacrifício vivente, e ao tornar-se-nos presente, torna presente também e nos comunica o seu Sacrifício da cruz.
Este sacrifício, que celebramos e em que participamos na Eucaristia, converte-se também em «sacrifício da Igre¬ja» (cf. CIC 1368-1369), porque nos unimos a Ele, não só oferecendo-o e comun¬gando com Ele na Eucaristia, mas também com toda a nossa vida, para ser juntamente com Cristo «vítima viva, para vosso louvor», «oferenda permanente», como pedem as Orações Eucarísticas como fruto da Eucaristia: «o sacrifício de Cristo torna-se também o sacrifício dos membros do seu Corpo. A vida dos fiéis, o seu louvor, o seu so¬frimento, a sua oração, o seu trabalho unem-se aos de Cristo e à sua obla¬ção total, adquirindo assim um novo valor. O sacrifício de Cristo presente sobre o altar proporciona a todas as gerações de cristãos a possibilidade de se unirem à sua oblação» (CIC 1368).