Dicionário elementar de liturgia

José Aldazábal

 

exorcismo

 

A palavra vem do grego, ex-orkizein (conjurar, lançar fora). O Evangelho, relata, com frequência, episódios em que Jesus, com o seu poder, liberta os possessos do demónio. Esse mesmo encargo foi transmitido aos discípulos, no dia da Ascensão: «Eis os milagres que acompanharão os que acreditarem: expulsarão os demónios em meu nome…» (Mc 16,17).
O exorcismo é uma acção, como a bênção, constituída de palavras e gestos – insuflação, imposição das mãos, sinal da cruz ou aspersão com a água benta –, pela qual a Igreja, em nome de Deus, liberta e protege do mal. Não é um sacramento, mas sim um sacramental que se aplica a uma pessoa ou a uma coisa (exorciza-se a água, os óleos, os lugares), que transmite o poder salvador e a vitória pascal de Cristo, libertando-as da influência do demónio (cf. Lc 8,26-39; Jo 12,31).
Na história da Igreja praticou-se o exorcismo, no processo catecumenal, sobretudo, em ambientes pagãos, como se vê insistentemente no Ordo Romanus XI, dedicado aos sacramentos de iniciação. O ministério do Exorcista per¬tencia às quatro Ordens Menores (juntamente com o Ostiário, o Leitor e o Acólito). Paulo VI, em 1972, (Ministeria quædam), suprimiu essas quatro ordens e estabeleceu dois «ministérios», o de leitor e o de acólito, ainda que, onde os episcopados o julguem conveniente, pela grande influência dos cultos pagãos, possam instituir também o de exorcista.
Em 1998, correspondendo às recomendações expressas no artigo 79.º da Constituição conciliar Sacrosanctum Concilium, sobre a necessidade de serem revistas as normas e as orações contidas no título XII do Ritual Romano, a Congregação do Culto Divino e da Disciplina dos Sacramentos procedeu à publicação da edição típica De Exorcismis et Supplicationibus quibusdam, cuja versão em língua portuguesa teve aprovação por Decreto da Sé Apostólica, em 2000.
Porém, o Código de Direito Canónico (c. 1172) reserva, explicitamente, ao Ordinário do lugar a autorização para o exorcismo de possessos. E o novo Ritual adverte, quanto à «necessidade de utilizar o rito do exorcismo, o exorcista julgará com prudência, depois de diligente investigação […] e consulte, na medida do possível, peritos em ciência médica e psiquiátrica, que tenham a sensibilidade das realidades espirituais» (n. 17).
No novo Ritual do Baptismo de Crianças, o exorcismo usa a forma deprecativa: a oração dos fiéis prolon¬ga-se com uma oração que pede fortaleza para as crianças no caminho da vida, e protecção contra todo o mal. Este exorcismo está acompanhado pela unção pré-baptismal no peito, ou, se parecer melhor, a imposição das mãos sobre a cabeça, significando, em ambos os casos, a fortaleza que se pede a Deus para esta luta.
No Ritual de Adultos fala-se, para o tempo do catecumenado, de uns «primeiros exorcismos» ou «exorcismos menores», que se realizam com as mãos estendidas sobre os catecúmenos, pedindo a força de Deus para «a luta entre a carne e o espírito» e mostrando a necessidade e a confiança do auxílio divino (RICA 101 e 109-118). A seguir, na última Quaresma, na celebração dos es¬cru¬tínios, volta-se a repetir este gesto: «No rito do exorcismo, celebrado pelos sacerdotes ou pelos diáconos, os *eleitos, já instruídos pela Igreja sobre o mistério de Cristo que salva do pecado, são libertados das consequências do pecado e da influência diabólica, são robustecidos para prosseguirem a sua caminhada espiritual, e abrem o coração para receberem os dons do Salvador» (RICA 156). A oração deste exorcismo é muito expressiva (cf. RICA 164).
Num tempo em que a figura do demónio é objecto de dúvidas e discussões, o exorcismo é um acto de fé no Mistério Pascal de Cristo e a aplicação da sua força vitoriosa na nossa luta contra o mal.

--> Escrutínio.