Questões e respostas

Fanfarra a abrir uma procissão

Participei um destes dias numa procissão. Na frente ia uma fanfarra, e atrás do Pálio e respectivos convidados seguiam duas bandas de música que, alternando, não deixaram espaços sem música! Não me lembro de termos feito uma oração colectiva ou cantado (versículos, antífonas, hinos...). Sendo a procissão uma forma de oração em que as pessoas, caminhando com respeito e de forma ordenada, sob a orientação do Senhor Padre, partem e regressam a um ponto central, o lugar sagrado; sendo a qualidade de celebração a forma como as pessoas participam… A minha questão, se possivel, é saber a importância da fanfarra à frente da procissão e desde quando este aspecto passou a ser ou se deseja que seja Tradição?

 

As minhas desculpas pela demora em responder à sua pergunta. Outros trabalhos urgentes não têm permitido manter o ritmo que desejaríamos para este serviço. Passou-se quase um ano nesta situação. Estamos a tentar pôr a escrita em dia, como costuma dizer-se.

Não vou ser longo na resposta às suas questões, formuladas aliás com toda a clareza: qual a importância de uma fanfarra à frente duma procissão? desde quando este aspecto passou a ser ou se deseja que seja Tradição?

Ontem mesmo respondi a outra questão que tinha muito de comum com a sua, embora de âmbito mais alargado, sobre bandas filarmónicas e procissões.

Quero dizer-lhe, a este propósito, que, a nível mundial, não existe qualquer documento da Igreja sobre o assunto. Pelo menos, nenhum Papa o tornou público até hoje. Pode perguntar-se qual será a razão de um tal silêncio, pois procissões religiosas e bandas filarmónicas a acompanhá-las são factos comuns pelo mundo fora. Não há cidade grande, vila de dimensão média ou pequena aldeia que não tenha a sua procissão, na maioria dos casos animada por música instrumental. Basta dar uma espreitadela na Internet: do Brasil ao Canadá, das ilhas dos Açores à Itália, do Luxemburgo aos Estados Unidos da América, ou do México a Portugal, para falarmos apenas desta parte do mundo mais próxima de nós, toda a gente conhece o fenómeno. Quais serão pois as razões explicativas para o silêncio da Igreja acerca de um tema que tem muito a ver com ela?

Alvitro duas hipóteses: a primeira terá a ver com o facto de as procissões estarem mais ligadas à religiosidade popular do que propriamente à Liturgia, o que justifica a não intervenção do Papa, e penso que também dos bispos, no tema; a segunda talvez seja motivada pela imensa variedade de usos e costumes populares ligados ao fenómeno.

Ver uma fanfarra a abrir uma procissão, não é caso invulgar. Eu próprio sou testemunha disso mesmo, todos os anos, em duas procissões com a imagem do Senhor Jesus dos Passos. À frente de cada uma delas vai sempre a fanfarra dos bombeiros locais.

Escrevia-me, a tal propósito, ontem mesmo, um colega, nestes termos: "Fanfarras ou eventualmente grupos folclóricos, posso colocá-los no início de cada procissão, mesmo nas de Sexta-feira Santa ou do Corpo de Deus". Registo a prática deste colega com particular interesse, por se tratar de alguém que tem lido muito sobre o tema e se interessa particularmente por ele. Outro colega dizia-me, também recentemente: "Quanto ao grupo musical que às vezes vai à frente, só o tenho visto com fanfarras de bombeiros, de escuteiros e outros, numa espécie de abertura mais ou menos solene (e às vezes, divertida) do cortejo religioso. Não o tenho visto com filarmónicas".

Em nenhum destes dois casos se põe a hipótese de um tal modo de proceder ser ou desejar-se que seja Tradição. Quando muito, são costumes populares ou tradições locais que o tempo dirá se sim ou não vão manter-se. Estas coisas dependem mais da vontade colectiva que da vontade de uma só pessoa. Mesmo que alguém manifeste, por palavras ou por escrito, o desejo de que determinada forma de proceder se transforme em "tradição", quem consegue isso é a vontade de uma comunidade no seu conjunto.

Termino pela citação de uma frase sua, da qual gostei particularmente e quero comentar: "a qualidade de uma celebração depende da forma como as pessoas nela participam". Muito bem. Procure fazer do seu melhor para o conseguir nas comunidades por onde andar. Diga-o repetidas vezes a muita gente. Talvez venha um dia a ter o gosto de o ver realizado com perfeição. A reforma litúrgica levada a cabo pelo Concílio Vaticano II chama-lhe participação activa, interior e exterior (Instrução Inter Oecumenici, n. 19; EDREL 168), de corpo e alma. O primeiro documento da reforma desenvolve a ideia central dos objectivos do Concílio, ao dizer: «É desejo ardente da Mãe Igreja que todos os fiéis cheguem à plena, consciente e activa participação nas celebrações litúrgicas, que a própria natureza da Liturgia exige e que é, em virtude do seu Baptismo, um direito e um dever do povo cristão, "geração escolhida, sacerdócio real, nação santa, povo resgatado" (1 Ped 2, 9; cf. 2, 4-5). É a esta plena e activa participação de todo o povo que se deve dar a maior atenção na reforma e promoção da sagrada Liturgia, porque ela é a primeira e necessária fonte onde os fiéis podem beber o espírito genuinamente cristão; por isso os pastores de almas empenhar-se-ão diligentemente em fomentá-la em toda a sua actividade pastoral, com uma pedagogia adequada. Mas, porque não se pode esperar que isto aconteça, se antes os pastores de almas não estiverem profundamente impregnados do espírito e da virtude da Liturgia e nela se tornarem mestres, é indispensável assegurar em primeiro lugar a formação litúrgica do clero» (SC 14; EDREL 14).


Um colaborador do SNL